Túmulo
de homem enterrado com um gato há 9,5 mil anos na Ilha de Chipre:
convívio humano com o animal começou muito antes dos egípciosEles
não levam a bolinha até o dono, não abanam o rabo como sinal de
felicidade nem colocam a barriga para cima pedindo carinho. Nem por
isso merecem ficar de fora da categoria “melhor amigo do homem”.
Gatos
podem até parecer pouco afetuosos, mas, se fosse assim, não
existiriam cerca de 600 milhões deles vivendo com humanos, em todas as
partes do mundo. Essa amizade é mais antiga que se pensava.
Por muito tempo, acreditou-se que a aproximação dos felinos com as pessoas começou há 3,5 mil anos, no Egito.
Mas
novos estudos genéticos sugerem que, na verdade, foi há quase 10 mil
anos, na região do Crescente Fértil (no Oriente Médio e norte da
África), que teve início essa história de amor.
Segundo
pesquisadores da Universidade da Califórnia (UC), câmpus Davis, a
região geográfica considerada o “berço da civilização moderna” também é o
berço dos gatinhos. Foi lá que os felinos começaram a ser
domesticados.
De acordo com a veterinária Monika Lipinski, que
conduziu um estudo sobre a ancestralidade dos gatos na UC envolvendo o
DNA de 11 mil gatos, todos eles têm origem no mesmo lugar. Assim como
ocorreu com os cachorros, a relação inicial foi de troca.
Os
homens, fixados no campo, precisavam de um aliado que desse cabo das
ratazanas que insistiam em devorar os estoques de alimentos
cultivados.
Por sua vez, os gatos, predadores naturais de
roedores, provavelmente viram nos novos assentamentos agrícolas a
chance de ganhar banquetes diários.
“Propensos a caçar
camundongos, ratos e outros roedores, os gatos tornaram-se
companheiros convenientes para os homens. Eventualmente, tornaram-se
animais de estimação, mas acho que nunca foram completamente
domesticados”, diz Lipinski.
Apaixonada pelos bichanos — ela faz
parte de diversas associações dedicadas a animais e é dona de um
bengali e de um persa —, a veterinária sustenta que, ao contrário dos
cachorros, os felinos mantiveram sua independência.
“Eles são
autossuficientes e, mesmo em relação à alimentação, não ficam esperando
o dono encher os pratinhos. Se necessário, vão atrás da própria
comida”, diz.
Leslie Lyon, orientadora do pós-doutorado de
Lipinski em 2008, conta que as amostras de DNA coletadas sugerem que,
ao serem domesticados no Crescente fértil e se espalharem pelo mundo
com os humanos, os gatos se concentravam em apenas quatro grupos
genéticos, algo que não mudou em 10 séculos.
As linhagens e suas
origens são F. silvestris silvestris na Europa, F. s. bieti na China,
F. s. ornata na Ásia e F. s. cafra na África.
“Eles podem ser
bastante diferentes, mas as manipulações das raças têm mais a ver com
estética do que com função. Os gatos domésticos continuam,
geneticamente, semelhantes aos quatro grupos ancestrais. Raças que,
por exemplo, se originaram nos Estados Unidos, como o maine coon e o
shortrair, têm um DNA bem parecido ao de raças europeias”, diz Lyon.
A
veterinária conta que, entre as curiosidades descobertas pela
pesquisa, está a de que o persa, na verdade, não tem quase nada de
oriental.
“Seu grupo é mais ligado ao da Europa ocidental”,
conta. A origem do peludo estaria no Mediterrâneo, e não no Irã, como o
nome sugere.
Já o siamês faz jus à alcunha: geneticamente, seu
grupo pertence à Ásia. “É importante notar que, com a pobreza
genética em termos de diversidade, os gatos domésticos estão
suscetíveis a distúrbios do DNA, como doença renal policística, que
costuma atacar os persas, e cegueira, um problema comum a várias
raças”, afirma Lyon.
Amizade“O
interessante é que, diferentemente dos cachorros, que têm uma função
importante para a casa, como a segurança, e, no passado, eram
essenciais para afugentar grandes predadores, os gatos quase não
contribuíram para a sobrevivência humana”, observa Monika Lipinski .
Por
isso, os cientistas ainda não entendem o porquê de o Homo sapiens ter
se afeiçoado tanto a esses bichos. Uma das provas de que a companhia
do gato foi conquistada menos por necessidade e mais por amizade é
justamente a baixa variedade genética.
Enquanto criadores de
cachorros fizeram diversos cruzamentos ao longo da história para
adaptar os cães a diferentes funções — caça, guarda, farejo de presas e
vigilância, por exemplo —, os gatos foram pouco manipulados. Os
cruzamentos, nesse caso, ocorreram com um único objetivo: deixá-los
ainda mais bonitos.
A primeira evidência de domesticação dos
gatos foi descoberta por Jean-Denis Vigne, pesquisador do Museu
Nacional de História Natural, de Paris.
Em um artigo publicado
na revista Science, Vigne e sua equipe descreveram uma tumba na Ilha
de Chipre, no Mediterrâneo, de 9,5 mil anos, onde estavam enterrados
um ser humano e um gato.
Na sepultura do indivíduo — a
fragilidade dos ossos não permitiu saber se era um homem ou uma mulher
—, continha várias pedras polidas, joias, ferramentas e outros itens
que, possivelmente, eram oferendas.
Para Vigne, tratava-se de alguém rico, pela quantidade e qualidade dos objetos. A 40cm, estava o esqueleto do gato.
O
animal foi posicionado simetricamente em relação ao seu dono, com a
cabeça voltada para o oeste. “Isso indica que, já naquela época, havia
uma forte relação entre gatos e humanos. Possivelmente, os gatos eram
considerados seres mágicos”, explicou o especialista à Science.
Gato selvagem africano semelhante aos primeiros felinos domesticados pelo homem
Ele
disse que não há evidências suficientes para se garantir qual o papel
dos gatos no Neolítico, mas contou que já foram descobertas diversas
imagens de gatos esculpidas em pedras, sugerindo que eram objetos
religiosos.
No Egito, onde se acreditou por muito tempo que
ocorreu a domesticação felina pela primeira vez, sabe-se que gatos
representavam a divindade Bastet. Quando morriam, eram mumificados com
a mesma pompa que seus donos.
Em museus com acervo de
egiptologia, como o Museu do Louvre, em Paris; o Museu Britânico, em
Londres; e o Metropolitan, em Nova York, há diversas múmias de gatos,
assim como objetos que os representam.
O tratamento dispensado
aos bichanos, porém, não era lá o melhor. Eles eram criados para
adorar a deusa e, para isso, sacrificados e enterrados na cidade
sagrada de Bastet.
A maioria, porém, não teve essa má sorte. Ao
se espalhar pelo mundo com seus donos — há quem diga que, na verdade,
o gato é que é o dono —, eles deixaram de ser usados em rituais e
passaram a exercer uma função bem menos dramática: ronronar e arrancar
suspiros dos apaixonados proprietários.
Fim do nomadismoIrrigada
pelos rios Jordão, Eufrates, Tigre e Nilo, essa região compreende,
hoje, Israel, Cisjordânia, Líbano, Jordânia, Síria, Iraque, Egito,
Turquia e Irã. É uma área fundamental na história da humanidade. Foi lá
que, há 11 mil anos, o homem deixou de ser nômade e passou a se fixar
no campo, de acordo com arqueólogos.
Fonte: Correio Brasiliense